Inserção na Arte

Na biografia, é dito que minha pintura pode ser classificada como impressionista com toques expressionistas, que é uma forma resumida e geral de situá-la. Vou apresentar aqui, com mais detalhes, onde ela pode ser inserida dentro dos movimentos artísticos que existiram (ou que poderiam ter existido).

A busca de inovações e rompimentos com correntes do passado não é algo característico da arte atual (que, no momento, é chamada de Contemporânea - antes era Moderna). Ela sempre esteve presente na História da Arte. Só para dar um exemplo, fala-se da pintura antes e depois de Giotto, que foi a figura mais expressiva no rompimento com a Arte Bizantina (isto no início do século XIV) e tido como o fundador da Arte Renascentista. Giotto descobriu a maneira de criar ilusão de profundidade numa superfície plana. Ele antecipou a ideia de perspectiva sob regras matemáticas, introduzida pouco tempo depois, e que causou verdadeira revolução na forma de pintar.

O ponto importante a destacar é que a evolução da pintura (e da arte de maneira geral) sempre esteve associada com descobertas tanto técnicas, como tecnológicas e científicas. Assim, além da introdução da perspectiva, veio o advento da pintura a óleo em telas esticadas (meio mais usado na Renascença), a incorporação de novos pigmentos e o consequente aumento das opções de cor.

Nunca houve um período com tantos acontecimentos capazes de influenciar a História da Arte como na metade do século XIX. Primeiro, lembremos a descoberta da fotografia e o imediato acesso a câmeras fotográficas. Sem dúvida, o advento da fotografia acarretou um grande impacto no desenho e na pintura que, até então, eram os únicos meios de se perpetuar uma imagem. Houve pintores que proclamaram a morte da pintura (é interessante observar que a proclamação da morte de alguma coisa não é algo inerente aos movimentos artísticos atuais). O Impressionismo surgiu nessa época.

Para situar um pouco melhor o meu ponto de vista sobre a inserção da minha arte no contexto das diversas correntes artísticas, deixe-me discorrer um pouco mais sobre o movimento impressionista.

Primeiro, acho importante mencionar que o Impressionismo não surgiu assim de repente, apenas como reação ao advento da fotografia. Já havia mais ou menos nessa época duas grandes correntes de ideias, polarizadas principalmente por dois grandes artistas, Ingres e Delacroix. O primeiro era partidário da valorização das formas e das linhas precisas do desenho (Neoclassicismo). De fato, esta atitude encerrava o pensamento central de toda a evolução artística até então. As cores deveriam continuar desempenhando apenas um papel coadjuvante. Já para Delacroix, as cores tomariam um papel mais importante (Romantismo).

Esta foi a época, também, da chamada revolução industrial. Alguns autores afirmam que sem ela não haveria Impressionismo. A indústria química foi capaz de fornecer novos pigmentos, ou seja, as cores passaram a ter novos e mais destacados representantes. O Impressionismo foi a entrada em cena das cores, que iam audaciosamente além das linhas do desenho. Apareceu, então, uma pintura bem mais solta. O tema paisagem passou a ser um dos preferidos, juntamente com a pintura ao ar livre, onde a indústria já era capaz de fornecer os tubos de tinta, o que facilitou sobremaneira esta prática. A observação das cores da natureza, diretamente, levou a novos resultados nas misturas (daí a importância da descoberta de novos e mais vibrantes pigmentos).

É oportuno também lembrar que essa foi a época de grandes desenvolvimentos na Ótica. Primeiro nos trabalhos de Maxwell, na elaboração da Teoria Eletromagnética e na ideia de que tínhamos apenas três tipos de sensores na retina. Depois, Chevreul apresentou a noção das cores complementares, explicando porque uma cor se torna mais vibrante na presença de sua complementar (todos os sensores da retina funcionam ao mesmo tempo). Este fato foi bastante explorado não só pelos impressionistas, mas pelos pós e neoimpressionistas. Até mesmo a composição aditiva da luz foi tentativamente usada por Seurat (e outros seguidores), denominada Combinação Ótica, mas que passou para a história como Pontilhismo.

Voltemos ao meu ponto de vista. Como essa foi uma época de grandes mudanças, deixou, também, muitos caminhos a serem seguidos. O escolhido pelos artistas apoiou-se no pensamento reinante de que era sempre importante fazer algo diferente. Consta que Paul Gauguin falou para Van Gogh que o considerava como alguém que tinha realmente conseguido algo novo depois dos impressionistas. Entretanto, muitas mudanças ocorreram apenas por serem diferentes. Não me cabe julgar se foi seguido o caminho mais adequado (nem me julgo capaz de fazê-lo). Como diz Ferreira Gullar em seu livro "Argumentação Contra a Morte da Arte", chegamos a um ponto em que há negação pela simples negação. Nega-se e não se apresenta nenhuma opção a ser seguida. Isto leva a um vazio. Não há para onde ir. Assim, aproveitando o que diz muito bem Affonso Romano de Sant'Anna em seu livro "Desconstruir Duchamp" é preciso voltar e buscar novos caminhos para a arte.

Logo após o Impressionismo, acho que a pintura começou realmente a trilhar um caminho interessante. Há muitos quadros do final do século XIX e início do XX, expostos no Museu d'Orsay, que retratam uma pintura de valores clássicos, em que se faz presente as cores, a suavidade e a leveza da pintura impressionista. O próprio Degas, que era admirador do desenho de Ingres, não se furtou da modernidade de seu tempo em adotar a fotografia como meio auxiliar de pintura (como, aliás, já o fizera Delacroix) e desenvolver os belíssimos e conhecidos trabalhos com suas famosas bailarinas. O século XX foi repleto de descobertas de um número incontável de pigmentos orgânicos transparentes e de grande poder de tingimento. Apareceram, dentre outros, os azos, ftalos, quinacridones, dioxazina, DPP, e a pintura passou ao largo de tudo isso. Apenas os pintores expressionistas usaram (de forma consciente) pigmentos da família dos quinacridones, dado o impacto de suas cores. Hoje, todos esses pigmentos estão por aí, muitas vezes com nomes de falecidos pigmentos, e não se sabe da sua importância e do que poderiam fornecer à pintura.

Houve outro aspecto importante, introduzido pela pintura impressionista, que também foi perdido no decorrer do século XX. A pintura impressionista passa apenas parte das informações a serem captadas pelos olhos (ao contrário da fotografia que passa todas). Acho este ponto por demais importante porque foi justamente o detalhe que evitou o presságio da morte da pintura frente à fotografia. Não preciso recorrer a uma pintura tecnicamente complicada para dar um exemplo. Seja uma rosa, uma simples rosa, com suas inúmeras pétalas. Na pintura impressionista bastam umas duas. Não se precisa entrar em detalhes com respeito às demais.  A mente de quem vê é que vai naturalmente formá-las. Este tipo de pintura possui essa áurea. Um quadro impressionista não é visto, ou melhor, interpretado, da mesma forma por duas pessoas. É evidente que isto acontece com tudo, pois pessoas são diferentes, mas não na intensidade de uma pintura impressionista. Indo mais além, um quadro impressionista também não permanece o mesmo para a mesma pessoa. Ele vai mudando com o tempo, juntamente com as naturais mudanças da vida de quem o vê. Este fato, que não possui contrapartida na fotografia, separa completamente esses dois tipos de atividade artística (a fotografia também é uma forma de arte) e cessa aí a competitividade. Considero este um dos mais importantes legados do Impressionismo.

É justamente a partir desses fatos que me esforço para situar minha pintura, ou seja, voltar ao início do século passado, mas procurando incorporar toda a modernidade que nos foi colocada à disposição durante todo o século XX e que continua pelo século XXI. Fiz um estudo amplo dos novos pigmentos e sei o que explorar de cada um. Minha paleta é formada, na sua maior parte, de pigmentos orgânicos, cuja característica principal é a transparência e o grande poder de tingimento (isto seria um sonho para os impressionistas). Não uso, necessariamente, sempre os mesmos pigmentos. Procuro adaptar suas características a cada pintura. Preparo as superfícies de minhas telas também dentro da modernidade fornecida pela indústria química (algo sem contrapartida na época dos impressionistas). Finalmente, a exemplo da fotografia que de concorrente passou à aliada da pintura, também não me furto de recorrer ao mundo digital para fazer simulações de cores, formas e composições.

Pode ser que haja algum questionamento no tocante à atualização do meu trabalho, por estar voltando a tão longe (início do século passado) para situá-lo. Primeiro, não vejo isso como um problema. Se estamos procurando por boa qualidade, é bom voltar onde ela parou. Segundo, os famosos "ready made" de Duchamp, que são uma referência para as linhas contemporâneas, datam quase da mesma época.

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